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Opinião: Rotina, quarentena, felicidade

4 Abril, 2020 - 09:25

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PUB Rotina, quarentena, felicidade Artigo de Octávio Costa, um dos diretores do Artbeerfest Caminha   Nesta quarentena, aquilo que parece depressão, é mesmo libertação. Reconfortante banho, revitalizante cerebral e anímico. […]

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Rotina, quarentena, felicidade

Artigo de Octávio Costa, um dos diretores do Artbeerfest Caminha

 

Nesta quarentena, aquilo que parece depressão, é mesmo libertação. Reconfortante banho, revitalizante cerebral e anímico.

 

Rotina

 

Com meio século, vou olhando nem sequer para trás, mas para o meio. Ali, onde a memória já não liga muito ao data armazenado lá no fundo e apenas em jeito blazé vai buscar coisas que dão jeito. Lembrar-me que ainda na semana passada comi uma garoupa e uns pargos frescos na brasa, em Faro com bons Amigos; Fazer-me um curto rewind há 1 hora olhando para o Kid A, quase com 18 anos, e que ainda tropeça nos sapatos para fazer um café de cafeteira. À moda antiga. O muito antigo esquece-se. Melhor, já está incluído na tendinite. O puto tem razão em tropeçar.

A rotina é tudo. É só o que nos move de episódio em episódio. Ora estás numa belíssima praia, ora estás no metro. Todos os dias fazemos coisas fenomenais, ou menos. Todos os dias nos imaginamos sem sequer tocarmos naquilo que não sonhamos. Vamos sorvendo, trabalhando, rindo, correndo, estando na fila, fervendo. Rotinas, que adoramos reclamando. Mas não existe livro de reclamações! Isso é um proforma institucional burocrata. Somos nós que queremos fazer isso todos os dias! Não sabemos fazer outra coisa! E gostamos. E repetimos, a praia, o restaurante, o autocarro, o gajo, e o outro parvo também. A carta do banco, uma raspadinha com a bica, sff! É desta!!

 

Quarentena

 

Agora não. Agora estamos a passar os melhores 15 dias da vida (foda-se, até nisso estes ladrões fizeram 14). Agora somos livres. Do quotidiano métrico e da hora sem minutos, só com segundos sem dar gás, meio parados. Esse bicho  – que dizem ser tão ridiculamente minúsculo – que nem o imagino, alterou-nos a tal. Confinou-nos ao melhor de nós mesmos. Ao quadro mais pacificamente íntimo, positivamente nostálgico. Voltou a dar-nos o tempo e o lanço como em nenhuma das mais belas e prazerosas férias das nossas vidas.

Vejo-me em paz com o cão Zézé, já não me parecem frete os passeios para o seu cocó; Com o Kid A na fase de imunidade ao dever e às obrigações; A Kid B como se ainda não fosse uma adolescente em desgaste da paciência alheia mais próxima. E a minha assistente social, sempre a não desistir dos casos dos outros, e dos nossos.

Parece-me tudo cinematográfico. O silêncio, os pássaros, a ausência de pessoas e de automóveis. Um vazio hoje e de amanhã, porque amanhã há de tudo uma vez mais, mas continua sem nada para materializar (rotinar?).

A tal, a rotina, mas sem ingredientes, maquinaria e adornos.

Lembro Lars Von Trier no dramaticamente belo Melancolia. Aquele destino que parece impossível, desacreditado do indivíduo ou da comunidade. Na consciência e na flor da pele – a epiderme – de que o “mundo nunca vai acabar”. Mas, a desconfiança marcadamente na derme, na sub capa dessa flor, no logo a seguir e antes da profundidade.

A incerteza que se apodera de tudo e todos, que é certamente epistemológica e divina ao mesmo tempo. Científico, lugar comum, devoto e crença.

O pânico, que só ao mais alienado ou menos racional, passa mais despercebido, do que daquele cuja preocupação e o senso comum fazem parte da composição da sua bula fisico-química do Ser.

Um tolo fica mais sereno perante o drama que aquele que é lógico.

Nesta quarentena pandémica o mundo e a vida não tem ordem primária ou secundária. Olhar para o meio e não para o passado ou para o futuro, ajuda pelo menos a centrar-nos em valores que na tal rotina andam por aí numa corrente de ar, que se avulsa ou se agrupa conforme dá jeito.

Nesta quarentena, aquilo que parece depressão, é mesmo libertação. Reconfortante banho, revitalizante cerebral e anímico. Bálsamo de valores, de percepção apurada. De amansar, de adoçar, suavizar e amenizar. Mas de fortalecer, rejuvenescer, revigorar, intensificar, intrepidez, ousadia.

Quando o bicho já estiver no jardim zoológico, logo ali ao lado do serpentário, mais ninguém vai querer saber dele. Só os passeios das escolas em visita de suposto estudo.

No rescaldo do sofrimento e das malfeitorias, crueldades e desgraças que nos ofereceu de mão beijada, dar-lhe-emos, a ele e aos próximos, a fibra e o calo que nos desenhou, a resiliência que nos aguçou e a tranquilidade que nos premiou.

Paisagens dolorosas, terão sempre alvoradas mais claras e radiosas.

 

Felicidade

 

Cheers!

 

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