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Monção

Monção: Violento incêndio destruiu teatro. Engoliu seis casas e espalhou o pânico – Foi há 86 anos

15 Março, 2024 - 00:04

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Tragédia originou construção de um edifício que é hoje um símbolo cultural do concelho.

Passavam poucos minutos das três da manhã do dia 15 de março de 1938, terça-feira. Subitamente, gritos de pânico encheram o centro da vila de Monção.

 

Do interior das casas, moradores saíram à rua e ficaram horrorizados com o que viram.

 

O Teatro Pereira, na Rua General Pimenta de Castro, estava a ser totalmente consumido pelas chamas.

 

Um fogo que, escreveu a imprensa na altura, “tomou tão assustadoras proporções que o horizonte se coloriu de escarlata e espessas nuvens de fumo toldaram o ar”.

 

Era o triste fim de uma emblemática casa de espetáculos tão estimada.

 

Conforme conta José António Barreto Nunes, investigador e entusiasta da História de Monção, “animou as noites durante a 1ª parte do século XX”. 

 

Foi neste espaço que Monção viu “as primeiras sessões de cinema e muitas companhias de teatro, vindas do Porto e de Lisboa”.

 

 

 

Entrada do Teatro Pereira ficaria logo abaixo do mastro de bandeira visível na imagem

[Fotografia: José António Barreto Nunes / Grupo FB Os Amigos de Monção]

 

 

 

[Fotografia: José António Barreto Nunes / Grupo FB Os Amigos de Monção]

 

 

 

Fogo ameaçou “um quarteirão de casas”

A violência do incêndio foi de tal ordem que, ainda segundo a imprensa, não se ficou apenas pelo teatro.

 

As chamas propagaram-se às casas mais próximas. Arderam seis. 

 

A situação estava tão descontrolada que “prometia reduzir a escombros mais um quarteirão de casas”.

 

Mas chegaram os Bombeiros.

 

Alguns deles enfrentam mesmo as chamas com “atitudes arrojadas e destemidas (…) distinguem-se dos seus companheiros pelo esforço titânico, persistência e valentia como se lançaram, não temendo perigos, nem vacilando, perante verdadeiros abismos, em luta contra o fogo”.

 

Sobre a origem das chamas, registou a imprensa da altura que “foi devido a um curto circuito no teatro, onde passara uma sessão de cinema, que terminou às 0h00”.

 

 

 

[Fotografia: José António Barreto Nunes / Grupo FB Os Amigos de Monção]

 

 

 

Apesar dos elevados danos materiais, não há registo de vítimas mortais.

 

 

 

Cultura renasce das cinzas com festa de luxo

Em pouco mais de 10 anos, Monção ganhou um novo e sofisticado equipamento cultural.

 

A poucos metros de distância do edifício que ardeu.

 

O dia 11 de junho de 1949 foi memorável para o povo. Era hora de inaugurar o novo Cine Teatro João Verde.

 

“Foi uma festa fabulosa. Marcaram presença autoridades portuguesas, espanholas, Presidentes de Câmara, Governadores Civis e autoridades religiosas. Realizou-se um grande baile exclusivamente destinado à alta elite daquele tempo”, contou à Rádio Vale do Minho, José Adriano Oliveira Cruz, historiador e investigador da história de Monção com base nos estudos que fez.

 

“Aconteceu aqui uma autêntica passerelle de carros de altíssimo luxo, de onde saíam senhoras muito bem vestidas”.

 

Em pleno Estado Novo, a Câmara de Monção era presidida por António Vasconcelos Felgueiras, homem em quem o Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar depositava “muita confiança”.

 

 

 

 

O primeiro filme

Num ápice, chegou a década de 50. O teatro perdia cada vez mais terreno para o cinema… e o Cine Teatro João Verde foi elaborado a pensar nos novos tempos.

 

Não tardou até chegar o primeiro filme: A Canção de Sherazade, de Walter Reisch, 1947.

 

 

 

 

 

 

 

“O cinema era três vezes por semana: à terça, à quinta-feira e ao domingo. Os bilhetes mais baratos custavam 3 escudos e 50 centavos”, descreveu o historiador com uma precisão incrível.

 

 

 

Até a palavra “Monção” aparecia escrita no telhado do edifício

[Fotografia: Albertina Santos / Grupo FB – Amigos de Monção]

 

 

 

 

Cinema, teatro e “bailes fantásticos”

As décadas de 50, de 60 e até mesmo de 70 foram de ouro para o Cine Teatro João Verde.

 

Em 1952, acontece em Monção um evento de maior dimensão: a Festa de Encerramento dos Cursos Oliva. Sim… estamos a falar da icónica máquina de costura, cuja concorrente principal era a Singer.

 

Nesse ano, a OLIVA implementou por todo o país um plano de divulgação da máquina de costura.

 

Em cada concelho, as alunas inscritas eram desafiadas a elaborar trabalhos naquela máquina.

 

Durante dois meses, as monçanenses produziram cerca de uma centena.

 

Segundo noticiou o jornal A Terra Minhota, entre os trabalhos realizados contavam-se vários vestidos e roupas interiores. Foram todos expostos tendo a mostra sido “muito concorrida”, realça o periódico.

 

 

 

 

[Fotografia: José António Barreto Nunes / Grupo FB Os Amigos de Monção]

 

 

 

 

[Fotografia: José António Barreto Nunes / Grupo FB Os Amigos de Monção]

 

 

 

 

 

As festas sucediam-se. Entre bailes, cinemas e festas de aniversário, o Cine Teatro era dos espaços que mais bombava em Monção. Assim entrou na década de 60.

 

“Houve cinema, teatro e bailes fantásticos e um auditório com mais de 700 lugares sentados.

 

O piso superior, totalmente plano, era onde se realizam os bailes. Faziam-se também exposições de numismática, filatelia”, prosseguiu Oliveira Cruz.

 

 

 

Bilhete para espetáculo no Cine Teatro João Verde

[Fotografia: Albertina Santos / Grupo FB – Amigos de Monção]

 

 

 

 

Pelo palco passaram famosas Revistas à Portuguesa e Vasco Santana foi uma entre as muitas celebridades que arrebatou aplausos em terras de Deu-la-Deu.

 

Nos entretantos, o rock explodia por todo o mundo. Se lá ao longe eram os Beatles e os Rolling Stones, por cá eram os Plátanos.

 

 

 

 

Bailes e festas sucediam-se no Cine Teatro, com os Plátanos a conquistar o povo
[Fotografias: José António Barreto Nunes / Grupo FB – Amigos de Monção]

 

 

 

 

Após a Revolução do 25 de Abril, o êxito do Cine Teatro parecia intocável. As grandes performances musicais continuavam a acontecer naquela sala de espetáculos, que passou também a acolher eventos políticos.

 

 

 

 

[Fotografia: Fernando Guedes / Grupo FB – Amigos de Monção]

 

 

 

 

A queda de um símbolo

Só que o cinema ganhava cada vez mais terreno. Os efeitos especiais galopavam. A tecnologia avançava.

 

O Cine Teatro não se adaptava e os mais recentes êxitos vindos de Hollywood não chegavam a Monção. A maquinaria era antiga.

 

A era do cinema português, essa, já tinha terminado há muito. E o teatro já não atraia as multidões de outrora.

 

O dia 31 de dezembro de 1986 é, até à data, o dia mais negro da história do Cine Teatro João Verde. Fechou portas.

 

Os anos foram passando. A estrutura do edifício começou a degradar-se. Da noite para o dia, mais uns vidros partidos. E assim continuaria por mais de uma década.

 

 

 

Renascer… para sempre!

Volvidos 12 anos, a Câmara Municipal de Monção consegue adquirir o edifício do Cine Teatro por 350 mil euros.

 

O então Presidente da Câmara Municipal, José Emílio Moreira, ladeado pelo Vereador da Cultura, Augusto Domingues, consideraram urgente dar um novo rumo e uma nova vida ao espaço.

 

 

Em 2010, as obras de recuperação seguiam a todo o vapor

[Fotografia: Google]

 

 

 

Toda esta operação durou 15 anos. Mas os monçanenses admitiram que valeu a pena a espera.

 

No dia 25 de abril de 2013, perante os olhos de todos, surgiu um Cine Teatro João Verde totalmente remodelado e adaptado aos novos tempos.

 

Agora sim… capaz de transmitir qualquer tipo de filme.

 

Capaz de acolher qualquer peça de teatro, com palco e sistema de iluminação a ombrear com os melhores da Europa. E ainda todo um auditório agora com cerca de 400 lugares, mas pleno de conforto.

 

 

 

[Fotografia: Arquivo/Município Monção]

 

 

 

Rua General Pimenta de Castro (onde em tempos foi o Teatro Pereira), na atualidade

[Fotografia: Google Maps]

 

 

 

As obras de reabilitação do Cine Teatro João Verde custaram mais de 2,5 milhões de euros.

 

 

 

 

[Fotografias capa: José António Barreto Nunes / Grupo FB Os Amigos de Monção]

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