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Monção

Monção: Terminou assim a saga de dois gigantes da política local. Um medalhou o outro

12 Março, 2026 - 14:48

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Feriado Municipal.

Augusto Domingues, antigo Presidente da Câmara Municipal de Monção (PS), foi agraciado esta quinta-feira pelo atual Presidente da Câmara, António Barbosa (PSD), com medalha de Cidadão de Mérito do concelho.

 

O momento aconteceu durante a Sessão Solene comemorativa do Feriado Municipal, no Cine Teatro João Verde.

 

Um episódio emotivo que teve, inevitavelmente, como pano de fundo, as acesas discussões políticas que ambos tiveram em reuniões de Câmara – sobretudo entre 2013 e 2017, quando António Barbosa liderava a oposição.

 

Recorde-se que foi em 2013 que Augusto Domingues se estreou como Presidente da Câmara. No entanto, o PS perdeu nesse ano a maioria absoluta.

 

A liderar o PSD estava António Barbosa, que não venceu nessas eleições autárquicas por escassos três votos.

 

Seguiram-se quatro anos de oposição cerrada por parte da vereação social-democrata. Augusto Domingues defendia-se e contra-atacava.

 

“Eu não tenho maioria, mas o senhor vereador também não!”, disse tantas vezes o então autarca socialista.

 

“É no que dá o poder perpetuado!”, atirava António Barbosa, ainda na oposição.

 

 

Acesos debates políticos entre Augusto Domingues e António Barbosa de 2013 a 2017

[crédito fotografias: arquivo/Rádio Vale do Minho]

 

 

O ambiente fervia, mas com ambos os intervenientes sempre a manterem o respeito e a elevação um pelo outro. Mais: fora da reunião de câmara, a amizade entre Augusto Domingues e António Barbosa prevaleceu. Abraçavam-se e cumprimentavam-se sempre.

 

E sempre assim continuou. Em 2017 António Barbosa venceu. Augusto Domingues passou a liderar a oposição. Na arena política, o combate prosseguia. Fora dela, a amizade também se mantinha.

 

 

 

[crédito fotografia: Rádio Vale do Minho]

 

 

Augusto Domingues: “Menosprezamos um jovem tigre laranja

Num discurso visivelmente emocionado, Augusto Domingues começou desde logo por dizer que ficou surpreendido no momento em que recebeu a notícia de que iria ser medalhado.

 

Mas, igual a si mesmo, não perdeu a oportunidade de fazer a plateia sorrir.

 

“Ser agraciado pela maioria PSD sabe bem! Sabe muito bem!”, disse com contentamento. Gargalhada geral na plateia.

 

Prosseguiu com uma retrospetiva dos 30 anos dedicados à vida autárquica. Recuou aos anos 90 em que entrou na política ao marcar presença numa sessão da Assembleia Municipal “de má memória”.

 

“Havia muito pouco respeito nessa altura. Intervenções insultuosas e disse para mim mesmo que não faria carreira política”, recordou.

 

Enveredou pelo ensino. Mas chegou aquele ano de 1997 em que José Emílio Moreira, então candidato pelo PS à Câmara de Monção, o convidou para ocupar o 2º lugar da lista socialista àquele orgão. Augusto Domingues aceitou.

 

 

 

[crédito fotografia: Rádio Vale do Minho]

 

 

Seguiram-se 20 anos em que, sobretudo na área da Cultura, Augusto Domingues deixou grande marca: o edifício do Loreto foi requalificado, assim como a Biblioteca Municipal, e o Cine Teatro. E, já como Presidente, foram criados o Centro Cultural do Vale do Mouro e a nova Sede da Banda Musical de Monção.

 

Ainda em 1997, como mordomo da Comissão das Festas em Honra à Virgem das Dores, Augusto Domingues impulsionou de forma decisiva a primeira edição da Feira do Alvarinho de Monção, atualmente um evento de enorme projeção nacional e internacional.

 

“Em 2013 menosprezamos um adversário que entretanto surgiu. Um jovem tigre laranja e íamos perdendo as eleições”, recordou Augusto Domingues com novo sorriso. Na plateia, António Barbosa, correspondia.

 

Um mandato difícil. Por um lado, a oposição cerrada do PSD. Por outro, os tempos de troika em que o país vivia.

 

“Aquilo parecia um jogo de xadrez. Tinha de jogar com o amigo António e por outro tinha de jogar com Abel Batista [CDS-PP]”, disse.

 

Todavia, e apesar dos desentendimentos, tudo se desenrolou “sempre com educação”.

 

“O mandato terminou e nós, mais uma vez, menosprezamos o adversário [António Barbosa]”, reconheceu o antigo edil socialista. O ano era de 2017 e o PS perdeu. O PSD recuperou a Câmara, perdida em 1997.

 

Augusto Domingues passou a vereador da oposição. Cumpriu os quatro anos e depois passou a deputado municipal.

 

 

 

[crédito fotografia: Rádio Vale do Minho]

 

 

“Esqueci-me do meu aniversário”

Visivelmente emocionado e com os olhos marejados de lágrimas, Augusto Domingues deixou a parte final do discurso para agradecer à família.

 

“Meus filhos, eu nunca fui o pai que vocês queriam que eu fosse”, disse o autarca de voz embargada. “Dediquei-me aos outros e deixei-vos por vezes sem o apoio necessário… mas estou tranquilo porque sei que vocês já me perdoaram”.

 

A voz tremia mais e Augusto Domingues terminou o discurso com um episódio demonstrativo do quanto vivia a política local. Recuou aos tempos em que era vereador e a Câmara era liderada por José Emílio Moreira.

 

“Andava eu e o José Emílio pelas freguesias a tentar compor as listas para eleições. Fomos a casa de uma senhora. Por lá ficamos até perto das 10 da noite”, contou.

 

“Quando cheguei a casa, vi na cozinha restos de uma festa que ali tinha havido. Champanhe aberto, bolo, marisco”. Foi então que se lembrou. “Eu nesse dia fazia anos. E esqueci-me”.

 

Um compasso de silêncio. Mais um agradecimento. O auditório explodiu num longo aplauso.

 

 

 

[crédito fotografia: Rádio Vale do Minho]

 

 

 

Barbosa: “Isto deve ficar como exemplo para futuro”

No seu discurso, o Presidente da Câmara, António Barbosa, não poupou nos elogios a Augusto Domingues.

 

“Sempre lhe reconheci, mesmo no tempo em que estive na oposição, a sua paixão pela terra”, disse desde logo António Barbosa.

 

“Fui muito duro!”, reconheceu. “Augusto Domingues governou a Câmara em tempos muito difíceis, mas também vos digo: dentro dos espaços onde fazíamos combate político éramos duros, mas no segundo a seguir sentávamo-nos à mesa e almoçávamos”, lembrou.

 

“Isto deve ficar de exemplo para futuro. O combate político deve ser um espaço onde não devemos pensar sempre da mesma forma mas que, fora de portas, tenhamos a perceção de que devemos respeitar-nos mutuamente”, sublinhou Barbosa.

 

Ato contínuo, enalteceu o facto de Augusto Domingues – mesmo após ter perdido a Câmara – ter decidido continuar como vereador na oposição e depois como deputado municipal.

 

“Quero agradecer-lhe este percurso notável ao serviço da comunidade”, concluiu Barbosa. Novo aplauso no Cine Teatro João Verde.

 

 

[crédito fotografia: Rádio Vale do Minho]

 

 

O programa das comemorações do Feriado Municipal prossegue esta tarde, pelas 15h00, no Parque das Caldas, com a inauguração de um painel intitulado Rostos da Escrita.

 

Uma hora depois, será lançado o livro Monção nas Guerras da Restauração. A Praça de Monção – 1658-1668. Cerco, Capitulação e Reintegração na Coroa Portuguesa, da autoria de Ernesto Português.

 

 

 

[crédito fotografias capa: Rádio Vale do Minho]