Começam hoje, em Valença, as Festas em Honra de Nª Srª do Faro. Do programa fazem parte vários momentos de índole religosa, entre os quais a emblemártica peregrinação ao Monte do Faro marcada para o próximo dia 15 de agosto.
Mas há também a vertente cultural. Nomes como Diogo Piçarra, Sara Correia e Sons do Minho vão passar pelo palco da edição deste ano.
Aos microfones da Rádio Vale do Minho, o Presidente da Associação Quimera, entidade organizadora, falou sobre o percurso da entidade, o papel da equipa, a importância do associativismo e os desafios de transformar cultura em desenvolvimento social, económico e territorial.
Rádio Vale do Minho — O que podem esperar os valencianos e os visitantes das próximas Festas do Concelho, nos dias 7, 8, 9 e 15 de agosto?
Orlando Vasco Oliveira — Podem esperar umas festas pensadas com muito empenho, com sentido de responsabilidade e com grande respeito por Valença. Queremos criar momentos de celebração, convívio e orgulho coletivo, mas também valorizar as associações, os artistas, a gastronomia, a tradição e a capacidade de acolhimento do concelho.
As Festas do Concelho devem ser um momento em que todos se reconhecem: os mais novos, os mais velhos, as famílias, os emigrantes que regressam, os visitantes e todas as pessoas que sentem Valença como sua.
O nosso compromisso é trabalhar para que cada edição seja uma experiência positiva e memorável. Queremos que quem participa se sinta bem recebido, que quem visita queira voltar e que os valencianos sintam orgulho naquilo que construímos em conjunto.
A Associação Quimera consolidou, desde 2021, uma presença relevante na vida cultural valenciana. O seu trabalho assenta na valorização do património, na cooperação com o movimento associativo, na promoção da gastronomia e da etnografia local e na criação de eventos capazes de aproximar pessoas e reforçar a identidade coletiva.
Rádio Vale do Minho — A Associação Quimera nasceu em 2021. Que necessidade esteve na origem deste projeto?
Orlando Vasco Oliveira — A Quimera nasceu de uma vontade muito genuína de fazer mais por Valença. Somos uma terra com uma identidade muito forte, com uma história extraordinária, uma monumentalidade única, uma gastronomia rica, tradições vivas e um movimento associativo de enorme valor.
Sentíamos que havia espaço para criar uma estrutura capaz de ligar estes elementos e de os transformar em projetos culturais com impacto.
Desde o início, a nossa ideia nunca foi apenas organizar eventos. Queríamos contribuir para valorizar Valença de forma consistente, dar visibilidade às associações, criar momentos de encontro entre gerações e reforçar o orgulho dos valencianos na sua terra.
A cultura não é apenas entretenimento. É memória, pertença, educação, identidade e também desenvolvimento. Quando trabalhamos bem a cultura, estamos a cuidar da comunidade e a criar condições para que o território seja mais atrativo para quem vive cá, para quem nos visita e para quem pode querer investir em Valença.
Rádio Vale do Minho — Ao longo destes anos, que áreas tem procurado privilegiar a Associação Quimera?
Orlando Vasco Oliveira — Temos procurado trabalhar Valença de uma forma abrangente, respeitando a diversidade que existe no concelho. A história e o património têm naturalmente um peso muito importante, porque Valença possui uma fortaleza de enorme relevância e uma paisagem urbana e cultural que merece reconhecimento internacional.
Mas Valença é muito mais do que a sua monumentalidade. É também gastronomia, etnografia, música, tradição oral, festas populares, associações, coletividades, freguesias, comércio local e pessoas. É essa dimensão humana que procuramos colocar no centro dos nossos projetos.
A gastronomia é um exemplo muito claro. Não é apenas comida: é identidade, é memória familiar, é saber-fazer, é economia local. A etnografia tem exatamente a mesma importância, porque ajuda-nos a compreender de onde vimos, como viviam as gerações anteriores e o que devemos preservar para o futuro.
Também valorizamos muito tradições como o batismo e outras práticas culturais e comunitárias que fazem parte da nossa identidade coletiva. São elementos que devem ser tratados com respeito, autenticidade e sensibilidade, mas que podem também ser apresentados às novas gerações de forma contemporânea e atrativa.
Rádio Vale do Minho — A Quimera tem trabalhado muito próxima das associações locais. Qual é a importância desse movimento associativo?
Orlando Vasco Oliveira — As associações são uma das grandes forças de Valença. Muitas vezes, são elas que mantêm vivas tradições, que promovem desporto, cultura, solidariedade, música, convívio e participação cívica. Sem o movimento associativo, muitos territórios perderiam uma parte essencial da sua vida comunitária.
A nossa visão é muito clara: a Quimera não pretende substituir as associações; pretende colaborar, criar pontes, dar visibilidade e ajudar a construir projetos em conjunto. Cada associação tem a sua história, os seus voluntários, a sua comunidade e o seu contributo. Quando conseguimos unir esforços, conseguimos criar algo maior do que a soma das partes.
As Festas do Concelho são um bom exemplo dessa lógica. São festas de Valença, para os valencianos e para todos os que nos visitam. Têm de refletir a diversidade do concelho, envolver as associações, criar oportunidades para os artistas, para a restauração, para o comércio e para todos aqueles que trabalham diariamente para manter Valença viva.
Rádio Vale do Minho — Um projeto desta dimensão depende sempre de uma equipa. Quem são as pessoas que têm ajudado a construir este percurso?
Orlando Vasco Oliveira — A Quimera é feita de pessoas e eu tenho muita sorte em trabalhar com uma equipa que acredita verdadeiramente neste projeto. Nenhuma associação cresce apenas com a vontade de uma pessoa. Cresce quando há compromisso, competência, disponibilidade e espírito de missão.
Quero destacar, de forma muito especial, o trabalho do Carlos Triquete, do Márcio Pires, da Cláudia Labrujó e da Marina Martins. Cada um tem dado um contributo inestimável, com dedicação, capacidade de trabalho e uma enorme disponibilidade para fazer acontecer.
Mas quero também reconhecer todos os restantes membros da associação, os voluntários, os parceiros e todas as pessoas que, de uma forma mais visível ou mais discreta, contribuem para que os projetos avancem. Muitas vezes, quem está nos bastidores é quem resolve os problemas, acolhe o público, prepara os espaços, acompanha os artistas, trata da logística e garante que tudo funciona.
A cultura faz-se de ideias, mas concretiza-se com pessoas. E a nossa equipa tem demonstrado um sentido de responsabilidade muito grande.
Rádio Vale do Minho — Além de presidente da Quimera, assume-se como gestor cultural. O que significa, na prática, desempenhar essa função?
Orlando Vasco Oliveira — Ser gestor cultural é ter uma visão, mas também ter os pés bem assentes na realidade.
É necessário pensar nos conteúdos, na programação, no público e na identidade do território, mas é igualmente essencial planear, gerir recursos, procurar financiamento, cumprir compromissos e garantir que os projetos são viáveis.
Um evento cultural não pode ser pensado apenas pelo cartaz ou pelo momento da festa. Tem de ser pensado desde o início: qual é o objetivo, quem queremos envolver, que impacto pretendemos alcançar, qual é o orçamento, que parceiros precisamos, que condições de segurança e logística são necessárias e que experiência queremos proporcionar ao público.
Existe uma grande responsabilidade em gerir expectativas. Quando organizamos um evento, as pessoas esperam qualidade, organização, emoção e segurança. Os artistas esperam profissionalismo. Os parceiros esperam seriedade. Os financiadores e entidades públicas esperam rigor na aplicação dos recursos. E a comunidade espera sentir que aquele projeto foi pensado para ela.
O nosso objetivo deve ser sempre criar um produto cultural que seja adorado pelo público, mas que também deixe valor no território. Um evento tem de gerar memória, participação, orgulho e dinamismo económico. Deve trazer pessoas à cidade, apoiar o comércio, dar oportunidades aos agentes locais e reforçar a imagem de Valença.
Rádio Vale do Minho — Que importância tem tido o apoio do Município de Valença neste percurso?
Orlando Vasco Oliveira — O contributo do Município de Valença tem sido muito importante. Um projeto cultural com ambição precisa de diálogo institucional, confiança e cooperação.
A Câmara Municipal tem um papel fundamental na valorização do território, no apoio às associações e na criação de condições para que eventos desta dimensão possam acontecer.
Nas Festas do Concelho, esse apoio é particularmente relevante. Estamos a falar de um evento que envolve programação, logística, segurança, espaços públicos, comunicação, acolhimento e uma grande responsabilidade perante a população e os visitantes.
A colaboração entre a Quimera e o Município permite unir capacidades. A associação traz proximidade, energia, criatividade e ligação ao movimento associativo; o Município assegura apoio institucional, recursos, enquadramento e uma visão estratégica para o concelho. Quando estas duas dimensões trabalham em conjunto, Valença ganha.
Rádio Vale do Minho — Tem referido várias vezes que Valença merece maior reconhecimento internacional. Que ambição é essa?
Orlando Vasco Oliveira — A ambição neste momento é a certificação da Fortaleza de Valença como uma das 7 Novas Maravilhas de Portugal. Valença tem argumentos muito fortes para ser ainda mais reconhecida a nível nacional e internacional.
A fortaleza, a localização fronteiriça, a relação com o rio Minho, a proximidade com a Galiza, o Caminho de Santiago, a história militar e comercial, as tradições e a autenticidade das pessoas fazem de Valença um território singular.
Mas o reconhecimento não acontece apenas porque temos património. Temos de saber contar a nossa história, criar experiências, promover o território com qualidade e envolver a comunidade nessa missão.
Eu sou profundamente apaixonado pela história de Valença, pela sua monumentalidade e por tudo aquilo que representa. Acredito que temos a responsabilidade de cuidar deste legado e de o projetar para o futuro. Não podemos olhar para o património apenas como algo do passado; temos de o transformar em oportunidade cultural, turística, educativa e económica.
A Quimera quer contribuir para esse caminho. Não temos a pretensão de fazer tudo, mas temos a vontade de fazer bem, de colaborar e de ajudar Valença a ocupar o lugar que merece.
As Festas do Concelho de Valença vão prolongar-se até 15 de agosto. Mais logo há Sons do Minho e Sara Correia.
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