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Monção

Monção: Lobos atacam dia e noite – Criadores de gado sem saber o que fazer

2 Janeiro, 2022 - 21:08

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“Só se preocupam em dizer que não se pode matá-los e não podemos fazer-lhes nada! E eles ainda matam o que é nosso”

O novo ano começou mal para José Júnior, residente no lugar de Alderiz, freguesia de Pias, em Monção. Ainda o sol do primeiro dia não tinha largado o horizonte quando o alarmaram.

 

As suas ovelhas estavam a ser alvo de um ataque de lobos. Largou tudo… mas já só foi a tempo de salvar duas. Para trás ficaram outras duas ovelhas e um carneiro, vítimas de um impiedoso ataque de lobo ibérico.

 

“Andamos com medo de colocar o gado cá fora. E depois ainda temos de ser tipo escravos… andar a secar erva para dar de comer aos bichos e tratá-los em condições”, lamentou o criador aos microfones da Rádio Vale do Minho.

 

Este ataque, contou José Júnior, foi mais um que se juntou a outros ocorridos no ano que terminou. “Na zona do Vale do Mouro também tem havido muitos”, disse.

 

Só que a luta é desigual. O lobo mata mas (como se disso soubesse) não pode ser morto.

 

Em Portugal, o lobo-ibérico está totalmente protegido por legislação nacional específica (Lei n.º 90/88, de 13 de agosto, Lei de Proteção do Lobo-ibérico, e o Decreto-Lei n.º 54/2016, de 25 de agosto que a regulamenta) e a caça à espécie está proibida em todo o país.

 

Tirar a vida a um lobo ibérico é crime punível com pena de prisão até 5 anos. “O lobo ibérico é uma espécie ameaçada e protegida por lei, cuja proteção é um dever inalienável do Estado Português e cuja perda empobrece toda a sociedade”, referiram já, em comunicado, 12 organizações, entre elas a Quercus, a Liga para a Proteção da Natureza e o Grupo Lobo.

 

Em Espanha, no ano passado, entrou em vigor uma lei que proíbe mesmo a caça ao lobo ibérico em todo o país.

 

 

E se for uma criança?

O ataque sofrido pelas ovelhas de José Júnior, contou o criador, ocorreu pelas 7h30 da manhã. O que, para o responsável, mostra que “o animal pode atacar a qualquer hora” e isso coloca em evidência um perigo ainda maior que é a possibilidade do lobo “confundir uma criança com um animal”.

 

 

Há quem fique no silêncio… e não recebe nada

Com mais de 10 anos de experiência nesta área, José Júnior acredita que o valor que irá receber pela perda dos animais vai ficar “longe” do quanto eles realmente valiam: cerca de mil euros no total.

 

 

José Júnior perdeu duas ovelhas e um carneiro, após ataque de lobo ibérico
[Fotografias: José Júnior]

 

 

De formalidade em formalidade, o criador de ovinos admite que só o faz não pelo valor que vai receber mas “só para chatear”.

 

No entanto, contou, existem também aqueles que não recebem nada. “Não têm os animais legalizados. Sofrem um ataque e depois têm de ficar calados porque estavam à margem da lei”, explicou.

 

 

Uma solução

Para José Júnior, uma solução para este problema passaria por colocar esta espécie “em cativeiro”. Ou seja, destinar uma “grande superfície natural vedada e preservada” ao lobo ibérico. “Se os querem ter, que cuidem deles”, atirou.

 

“Só se preocupam em dizer que não se pode matá-los e não podemos fazer-lhes nada! E eles ainda matam o que é nosso”, exclamou. “E agora? Se quisermos comer cordeiro na Páscoa temos é de ir comprar”.

 

 

O lobo ibérico

O lobo ibérico, a subespécie que habita a Península Ibérica, tem a designação científica de Canis lupus signatus e foi descrito em 1907 pelo zoólogo espanhol Angel Cabrera.

 

Distingue-se do lobo que habita a restante área europeia essencialmente por ser mais pequeno e pela coloração da sua pelagem, que é mais amarelo-acastanhada. Para além disto, possui cores mais fortes e um padrão de coloração das faces e focinho diferente.

 

 

Lobo Ibérico é uma espécie protegida pela legislação nacional
[Fotografia: Arquivo/DR]

 

 

De acordo com os números recentes do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da Universidade do Porto, divulgados pelo jornal O Minho, em toda a zona Norte de Portugal, existem cerca de 300 lobos, a grande maioria concentrada na sub-região de Trás-Os-Montes, entre o rio Douro e Espanha (total de 54 alcateias).

 

No distrito de Viana, e sob monitorização da CIBIO, são seis alcateias: Soajo, Vez, Peneda, Boulhosa, Cruz Vermelha [Paredes de Coura] e Serra de Arga.

 

As mais estáveis estão em Soajo e na Peneda, no concelho de Arcos de Valdevez, já dentro do coração do Parque Nacional Peneda-Gerês.

 

 

[Fotografia capa: José Júnior]

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